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Brasil: Mundos complementares

Adriana Nunes sobre seu livro Nur die Edelsteine kommen aus Brasilien - Brasilianer in Deutschland (Somente as pedras preciosas vêm do Brasil – Brasileiros na Alemanha).

No livro, a jornalista de Salvador da Bahia juntou os depoimentos de brasileiros e brasileiras que, como ela, vieram para a Alemanha para começar uma "segunda" vida. Gente famosa como o jogador Júlio César e o sociólogo Luiz Ramalho como, também, pessoas desconhecidas falam sobre suas experiências com a Alemanha e os alemães.

Adriana Nunes vive na Alemanha desde 1988 e trabalhou para várias emissoras de rádio e tv, como a WDR e a Deutsche Welle.

Veja a entrevista que ela deu para o Caiman:
Caiman: De onde surgiu o título Somente as pedras preciosas vêm do Brasil?

Nunes: O título surgiu do depoimento de Tarcísio Loch, teuto-brasileiro e comerciante de pedras preciosas brasileiras na Alemanha. Na sua entrevista, Tarcísio conta que tinha muita dificuldade em vender as pedras para os joalheiros alemães, quando lhes revelava, logo no início da conversa, que era brasileiro. Os joalheiros temiam que as pedras fossem falsas. Então, Tarcísio desenvolveu uma estratégia de venda diferente. Como ele é loiro e passa por um alemão, sem problemas, ele começou a dizer para seus potenciais clientes que somente as pedras preciosas vinham do Brasil. Apenas depois de fechar negócio, de estabelecer uma relação de confiança, é que ele revelava sua verdadeira nacionalidade.

A intenção do título é chamar a atenção para as injustiças do novo mundo globalizado, onde as mercadorias e o capital têm livre fluxo internacional, mas as pessoas se deparam com fronteiras muito rígidas, preconceitos e barreiras quase intransponíveis.

Caiman: Você mora na Alemanha há quase 16 anos – pareçe que você está gostando do país.

Nunes: Gosto de viver na Alemanha. É um país bom para trabalhar: os salários são justos, ainda há muita eficiência, competência, pontualidade e respeito. O sistema de saúde e educação funcionam (não sei por quanto tempo ainda), o transporte público é excelente, o que facilita muito o cotidiano. A vida cultural do país é fantástica, daqui se tem acesso rápido a outros países do mundo. Falta, porém, muita coisa para eu me sentir totalmente bem aqui. Faltam humor, espontaneidade, leveza no trato entre as pessoas. E, obviamente, falta o sol, que nos dá muita energia e alegria de viver.

Caiman: Qual é a diferença mais importante entre a Alemanha e o Brasil?

Nunes: Em termos de mentalidade, eu diria que os brasileiros, de um modo geral, são mais descontraídos, mais espontâneos, descomplicados e alegres do que os alemães. Esta é uma diferença que salta aos olhos de quase todo brasileiro que chega aqui.

Caiman: Como é a imagem do brasileiro na Alemanha, vista pelos alemães?

Nunes: Por um lado, o brasileiro representa para os alemães tudo o que dá prazer. Boa música, mulheres bonitas e sensuais, futebol-arte, caipirinhas gostosas, sol, praias, palmeiras, carnaval. Por outro lado, a imprensa alemã está repleta de matérias sobre o horror no nosso país: a pobreza, a injustiça social, a criminalidade, as guerras entre os traficantes de drogas nas favelas, as crianças de rua, a escravidão ainda existente em certos lugares, etc.

Caiman: No seu livro, você entrevistou 31 brasileiros que vivem na Alemanha. Tirando uma média, como é a imagem da Alemanha, vista pelos brasileiros.

Nunes: Os brasileiros, de um modo geral, consideram a Alemanha um país sério e prezam o Estado social, com seus benefícios para o cidadão, que, aqui, ainda goza de respeito. Por outro lado, ressentem-se da xenofobia, dos empecilhos burocráticos, do clima, da dificuldade de aprender o idioma e da mentalidade. Muitos acham os alemães muito fechados, sovinas, e com dificuldades de se relacionar. Não podemos esquecer, porém, os depoimentos que revelam outras opiniões, discordantes. Há muitas pessoas que descobriram aqui o amor, a ternura e muitas amizades duradouras e confiáveis.

Caiman: Sabendo de todos os problemas do Brasil, conhecendo a realidade dura da vida cotidiana brasileira, você consegue entender o entusiasmo de muitos estrangeiros, como p.ex. alemães, quando o assunto é o Brasil paradísico?

Nunes: Não. Não há paraíso na terra. Consigo entender que os alemães se sintam bem no Brasil, quando estão de férias, cheios de dinheiro no bolso para gastar com atividades prazeirosas. Consigo entender também que muitos alemães fiquem entusiasmados com a forma aberta e calorosa com que são recebidos, vindo a ser, logo, integrados à realidade brasileira. Mas qualquer pessoa mais crítica vai descobrir logo os lados incômodos do Brasil: os assaltos, a injustiça social, o machismo, os preconceitos, etc., etc. Mesmo assim, conheço muitos alemães que preferem viver no Brasil e nem sonham em voltar à Alemanha, sobretudo quando estão desfrutando de excelentes salários e uma vida boa e repleta de emoções.

Caiman: A Alemanha é aquele país onde tudo é melhor, tudo funciona, mas onde as pessoas sâo mais frias e caladas?

Nunes: Não, nem tudo é melhor, de jeito nenhum. E nem todo mundo é frio e reservado. Vale lembrar que, aqui também, as diferenças sociais estão se agravando, a corrupção, a criminalidade e o desemprego estão aumentando, e o sistema de ensino público está com graves deficiências. Nas universidades, já se cogita a adoção de mensalidades. O sistema de saúde começa a passar por reformas sérias, que oneram, cada vez mais, o cidadão. Há uma crise de criatividade nas instituições e uma resistência muito grande às mudanças e inovações. As crianças quase não dispõem de creches, nos três primeiros anos de vida. A mulher alemã, mais do que a brasileira, é obrigada a optar entre a carreira e a maternidade. Há muita violência doméstica, muitos casos de pedofilia e abusos sexuais. O machismo na Alemanha ainda existente é justificado de forma brutalmente racional. E a depressão e outros problemas psíquicos vêm se agravando cada vez mais.

Quanto às pessoas, não diria que são mais caladas. Diria, apenas, que são mais reservadas, mais contidas, que demora mais tempo para você entrar no coração de um alemão. Mas, quando isto se dá, em muitos casos, estas amizades são de grande qualidade humana e duradouras.

Caiman: Para você, o Brasil significa, hoje, depois de 16 anos na Alemanha, alguma coisa diferente?

Nunes: Sim. Continuo gostando do Brasil, mas já o vejo sob um novo prisma. Há coisas que antes não me incomodavam e que hoje me irritam. Há coisas que antes me eram indiferentes e que hoje me encantam, me surpreendem. O Brasil mudou, eu mudei, e, naturalmente, minha forma de me relacionar com o país, também.

Caiman: A mulher brasileira tem fama de ser mais sensual do que a alemã. Você, como a baiana mais germânica da Bahia Kölônia (auto-definição), percebe essa diferença?

Nunes: Acho que a mulher brasileira investe mais na beleza, no culto ao corpo, em operações plásticas, em manicure, em ginástica, na paquera, na coqueteria. Ela valoriza mais o "ser atraente para um homem". No Brasil, se expõe bem mais o corpo do que na Alemanha, há uma preocupação maior com o físico.

Mas a nova geração de jovens alemãs está passando a investir mais no visual, em roupas sexy, em cabelos longos, bem tratados. Quando saio na rua, me deparo com meninas loiras, lindas, bem maquiadas e super atraentes. Muitas seguem o ideal dos vídeoclips, dos filmes de Hollywood, dos ícones da música pop, das top models.

Caiman: Parece que os brasileiros e os alemães se gostam muito. De onde vem a afinidade entre os brasileiros e os alemães?

Nunes: A afinidade, quando existente, vem talvez do fato de nossas culturas e mentalidades serem complementares, em muitos aspectos. Quem define bem esta complementaridade, no meu livro, é o sociólogo Luiz Ramalho.

Caiman: Você pretende voltar para o Brasil, para ficar?

Nunes: Não sei. Estou aberta para várias possibilidades. Quem dirá o que será da minha vida, em alguns anos?

Caiman: Imagine, você pode levar apenas três coisas tipicamente alemãs para o Brasil - o que você colocaria na sua mala?

Nunes: As salsichas, Thomas Mann e a catedral de Colônia.

Caiman: É possível ter duas pátrias?

Nunes: Sim e não. Sinto-me ligada, afetivamente, aos dois países, aos quais quero muito bem. Mas na hora da Copa do Mundo, só consigo torcer pelo Brasil.

Texto: Thomas Milz
Foto:
divulgação
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O livro "Nur die Edelsteine kommen aus Brasilien - Brasilianer in Deutschland" foi publicado, em alemão, pela editora EOS-Verlag, St. Ottilien. Para comprá-lo, entre no site da EOS www.eos-verlag.de ou ligue para 08193-71431 (0049-8193-71431 para ligações de fora da Alemanha).


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