ed 12/2008 : caiman.de

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[art_3] Brasil: O Brasil dos correspondentes (Parte II)

Enquanto o livro "O Brasil dos correspondentes" segue seu turnê pelas mídias, universidades e livrarias brasileiras, gostaríamos de oferecer para você, nosso caro leitor, um aperitivo especial: um capitulo do livro totalmente de graça aqui no nosso site. Divirtam-se!

Como alguém se torna repórter de futebol

Quando criança, eu tinha dois sonhos: queria ser correspondente estrangeiro e repórter de futebol. Em 1982, com dez anos de idade, comentei, num pequeno caderno da escola, a Copa da Espanha que, na perspectiva alemã, foi uma surpresa (a Alemanha somente veio a fracassar na final com um 3:1 para a Itália, incluindo um gol de Paolo Rossi, de quem os brasileiros hão de se lembrar muito bem ...). Em algumas páginas, manifestei minhas idéias sobre o grandioso jogo entre Brasil e Itália, em que os brasileiros foram derrotados num 3:2 no Estádio Sarriá, que desde então sempre voltou a cruzar meu caminho de modo enigmático. Ao lado dos relatos sobre o jogo, colei fotos que eu havia recortado dos jornais do dia.

Com relação aos sonhos infantis, é normal que não se dê a devida atenção a eles, preferindo-se tentar outras coisas, para finalmente, através de mil e um desvios, dar novamente de cara com aqueles sonhos.



Zico

Pelo menos o sonho de ser correspondente estrangeiro, esse eu tentei realizar ativamente. Logo após a conclusão de meu curso superior, encaminhei-me para São Paulo e tentei começar uma carreira como freelancer.

Lá o destino me pregou uma surpresa em forma de um telefonema. Um amigo argentino, que além de exercer suas atividades como treinador de voleibol, professor de tango, jornalista e autor de livros (!) também estava filmando entrevistas com heróis do futebol sul-americano para a televisão italiana, telefonou-me pedindo ajuda. Ele havia combinado uma entrevista com Diego Maradona, e os honorários seriam pagos pela rede de TV. Mas poucas horas após meu amigo visitar Maradona para combinar a entrevista, o astro argentino sofreu um colapso e ficou durante alguns dias entre a vida e a morte. Após recuperar-se, exigiu o dobro. Agora era tarefa minha conseguir o dinheiro que faltava para a entrevista junto a canais alemães. Só que isso não rendeu frutos, pois ninguém queria financiar "o consumo de drogas do senhor Maradona".

O que se seguiu foi uma meia dúzia de entrevistas com jogadores brasileiros, em cuja organização (nesse estágio ainda rudimentar de minhas capacidades, ainda não se podia falar de uma verdadeira produção) eu prestava ajuda ou, como diria ele, eu causava problemas a meu amigo argentino. (Depois ele acabou me dedicando um de seus livros com a seguinte frase pouco lisonjeira: "Para o meu caro produtor alemão. Por todos os seus esforços para tornar minha vida infeliz.")



Careca

Paralelamente a essas valorosas olhadelas no funcionamento da alma argentina, as entrevistas com ídolos como Zico, Careca, Casagrande e Toninho Cerezzo trouxeram-me de volta o velho amor pelo futebol. Foi simplesmente grandiosa a descrição que Cerezzo fez daquele passe infeliz que Paolo Rossi interceptou e converteu em gol ("Não foi um passe errado, mas um passe na área livre que ninguém, a não ser Rossi, quis receber ..."). E ouvir Sócrates e Casagrande falar sobre a Democracia Corintiana foi um modo de me catapultar diretamente para dentro do Brasil do início dos anos 80 e do Movimento Diretas Já.

Com espanto descobri quantas figuras míticas da história do futebol podem ser encontradas nas esquinas de São Paulo. O goleiro Félix, da maravilhosa seleção de 1970, encontrei na Rodoviária Tietê. E a idéia de simplesmente tentar a sorte de encontrar Rivelino com certeza teve sua origem no tédio de meu amigo argentino no meio de minha festa de aniversário. Após duas horas numa corrida de táxi por todos os lados de São Paulo, acabamos sentados diante de Rivelino no bar que ele acabara de inaugurar na zona sul da cidade. Não sobrara nenhum tostão para tomar o táxi de volta, mas em compensação havíamos conseguido o consentimento de Rivelino para uma entrevista. Quando cheguei em casa, todos os convidados do meu aniversário já haviam ido embora.



Casagrande

Finalmente comecei a escrever artigos sobre esporte para jornais alemães. Mas aí tive de fazer a dolorosa constatação de que as grandes agências de notícias internacionais já não apenas produzem meras notícias dos resultados dos jogos, mas também fornecem artigos detalhados sobre os acontecimentos no mundo do futebol para todo o mundo quase em tempo real. Não fazia sentido escrever contra uma poderosa concorrência dessa natureza. A globalização das notícias viabilizada via Internet quase não deixava espaço de publicação para um freelancer como eu.

Por sorte que estava se aproximando a Copa do Mundo de 2006 na Alemanha, e com ela foi aumentando a fome de revistas alemãs por histórias detalhadas e originais sobre o mundo da bola. De repente, em longos artigos, consegui deter-me sobre a histórica rivalidade entre Inglaterra e Argentina, pude passar para a frente perfis do "quarteto mágico" e ainda logrei ressuscitar mais uma vez, de forma épica, a catástrofe brasileira de Sarriá.



Toninho

Após a Copa, a velha e conhecida calmaria voltou a se fazer presente. Ainda consegui encontrar espaço num jornal austríaco para um artigo mais longo sobre a desesperada busca de Romário pelo maldito gol número 1000. Fora isso, a maior parte do tempo fiquei mesmo num impedimento passivo. Pelo menos consegui colaborar em alguns artigos sobre o futebol brasileiro para a rádio alemã para a qual agora estou trabalhando.

Mas pelo menos eu tinha adquirido os apetrechos necessários para outra produção televisiva fora do mundo do futebol. E assim o destino me pregou mais uma peça, dessa vez longe da bola. Mas o futebol ainda não me largou por completo. Atualmente estou sofrendo com o processo de escrita de um livro sobre Ronaldinho. O jogador gaúcho deverá dar seu testemunho sobre o retorno do futebol-arte, cujo mais novo representante é, na minha opinião, o próprio Ronaldinho (pelo menos no tocante à temporada 2005/2006…).



Socrates

O ponto de partida é, mais uma vez, a saudade da magia encarnada pela seleção de 1982 que eu aprendera a amar quando criança. Exatamente como muitos brasileiros, busco os vestígios daquela seleção no presente, tenho a esperança de um renascimento daquele jogo bonito. Agora o meu amigo argentino já é deputado na Argentina. Se esse era o seu sonho de criança, não sei dizer. Mas o destino às vezes nos prega umas peças muito estranhas.

Texto + Fotos: Thomas Milz

"Estes testemunhos compõem o capitulo mais recente, mais trepidante e mais sedutor do País-Relato, Brasil-Brasis." - Alberto Dines, jornalista, na apresentação do livro "O Brasil dos correspondentes"

Trinta anos na linha da história podem parecer um grão de areia no deserto. Mas a trajetória desde 1977, quando começa este livro, até 2007, foi talvez uma das mais ricas e vibrantes de um país, que saiu de uma ditadura e aprendeu a construir uma democracia. Em apenas 30 anos, o povo nas ruas pediu as Diretas e o Impeachment de um presidente; levou ao cargo mais importante do país, primeiro um sociólogo e professor universitário e, anos mais tarde, um operário metalúrgico, ambos, aliás, perseguidos pelo autoritarismo. Nos seus textos os correspondentes contam esta história e soltam sua veia de cronistas, mostrando os aspectos que mais impressionam jornalistas estrangeiros na cobertura de um país com a dimensão do Brasil. - Os Organizadores

O Brasil dos correspondentes
Organização:
Jan Rocha, Thomas Milz e Verónica Goyzueta
Com fotografias de:
Paulo Fridman, Roberto Cattani e Thomas Milz

Mérito Editora 2008
Preço 62 R$

Já nas melhores livrarias do Brasil!

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