ed 12/2008 : caiman.de

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[art_1] Brasil: A Bienal de São Paulo e o vazio da arte contemporânea



Depois que o entretenimento passou a ser um requisito de fácil utilização da arte contemporânea mais difundida, o olhar foi surpreendido pela ausência de raciocínio. A 28ª Bienal de Arte de São Paulo está vazia de obras e idéias. Difícil até de fotografar como constata o fotógrafo Thomas Milz ao fazer uma viagem com sua câmara fotográfica no prédio projetado por Oscar Niemeyer e terminou registrando a euforia e a disputa do público para escorregar no tobogã, instalado nas dependências do prédio. Uma obra de arte? Uma diversão? Pouco importa. Fazemos parte de uma civilização sem tempo para se dedicar ao  pensamento, irremediavelmente contaminada pela carência de lazer. Uma cultura do efêmero.


Para o público viciado no espetáculo do consumo, visitar a 28ª Bienal é mais uma diversão, um lugar do flerte e da ociosidade, um ponto de encontro para se falar de recessão, da crise financeira global, do carro novo, de tudo, menos de arte. As bienais de arte perderam a credibilidade, há muito tempo. Nessa mostra a arte é um adjetivo substituível na frase. O que interessa é a ilusão da praça protegida que não existe mais na cidade. Destruída de seus valores e funções, a cidade é selvagem, recuperar o espaço social, a convivência com o outro, com o desconhecido, é um desafio e uma necessidade, mas não é a função principal da arte.

A obra de arte já não é mais o atrativo do espetáculo, diante da importância exacerbada do patrocinador e do curador. O artista passa quase despercebido e a obra é um simulacro. O marketing do produto é mais importante que o próprio produto.


A idéia de arte, que vem desde a renascença como saber autônomo, foi substituída por mais um produto de consumo, condicionado à indústria da moda e aos agentes externos que ditam as regras do circuito de arte. O público geralmente consome qualquer coisa. Na condição contemporânea de articulação social, a arte foi reduzida a acessório, como mostra esta bienal, de aproximação das pessoas com a cidade. Uma cidade da especulação imobiliária e da economia do metro quadrado, com uma arquitetura sem poesia, esvaziada de sentido, ameaçada por todos os tipos de violências e medos. Medo  até de consumir o que não está  na moda. Uma cidade destruída de valores, deserta e entulhada de imagens.

Diante dos pilotis do prédio de Oscar Niemeyer, observamos a perspectiva do espaço celebrado pela fotografia, uma pergunta ou uma dúvida: Será que esta bienal quer estimular um questionamento sobre o vazio da arte e da vida moderna de uma civilização utilitária e frívola? não sabemos ao certo. A obra do arquiteto é que ficou visível. Um monumento ao vazio para reverenciar ou ironizar a racionalidade e a objetividade da arquitetura moderna.


O olhar atendo do fotografo testemunha a relação do espectador com a solenidade do espaço, a indiferença com a arte. A sensação era a mesma de estar num shopping center. Mesmo quando avistamos manifestações que a curadoria e o contexto determinaram como obra de arte, não experimentamos nenhum estado de desejo, o olhar permanece alheio ao que ver. Será que estamos em crise? Do consumo de arte à relação amorosa não sabemos mais onde colocar o desejo. As responsabilidades são negociadas, trocadas. A ética deixada de lado. No meio de arte, quem decide o Ministério da Cultura ou a Petrobras? Por exemplo. Para que serve uma mostra de arte desse porte? É uma boa pergunta depois de uma visita à 28ª Bienal de São Paulo.

Texto: Almandrade - artista plástico, poeta e arquiteto
Fotos : Thomas Milz

O Caiman encontrou Almandrade no lançamento do seu livro "escritos sobre arte - arte, cidade e política cultural" (Editora Cispoesia 2008), num dia chuvoso e frio em São Paulo.

Caiman: Para que serve a arte?
Almandrade: Acha que ela não serve para nada. Mas ela acaba servindo para tudo. Nietsche disse uma coisa interessante: precisamos da arte para não morrer de verdade. Acho que se o homem estivesse satisfeito com o mundo e tivesse resolvido seus problemas biológicos, ele não precisava da arte. Mas, na verdade, falta alguma coisa para ele, e esse "alguma coisa” é a arte, como também a religião. Ela atende essa carência, essa falta para ele se relacionar com o mundo.

Caiman: E o artista é o sacerdote da arte?
Almandrade: É, acho que o artista é uma espécie de operário da linguagem. Um sujeito que passa a vida contemplando, tentando produzir uma visualidade.

Caiman: Qual é o estado da arte contemporânea no Brasil?
Almandrade: Tenho muitas duvidas ao relação de que se chama de arte contemporânea. Estamos vivendo um momento de crise, de muita repetição, de muita facilidade... A Bienal é mais para um parque de diversão e menos um lugar de reflexão. A arte contemporânea está perdendo esta capacidade de reflexão. Também tem essa coisa de que quando alguém não sabe fazer coisa nenhuma, vira artista contemporâneo. Os artistas contemporâneos de hoje, principalmente desde da década dos anos oitenta para cá, pegam as coisas no meio do caminho, começam a fazer qualquer coisa, e tudo vira uma espécie de repetição. Mas a arte é outra coisa.

Caiman: Existe um ponto de vista tipicamente brasileira sobre a arte contemporânea?
Almandrade: Não, acho que a arte contemporânea é mais universal. Mas existem características locais, características geográficas e pessoais, que transitam nos trabalhos. Mas, na verdade, é um questão universal, e a arte contemporânea mostra bem essa universalidade. Tudo passo por um filtro da universalidade.

Caiman: Hoje em dia, a arte parece mais comercial e menos idealista - isso é bom ou ruim para a arte?
Almandrade: A arte está perdendo aquela condição de ser um meio de conhecimento especifico e está se transformando num objeto de lazer. Ela está perdendo essa condição de pensamento e está se transformando numa outra coisa determinada pelo mercado. Como se a arte fosse uma mercadoria, e, de repente, num dia essa mercadoria cai da moda. E o mercado precisa sempre de produtos novos. Mas a arte é, na verdade, um produto velho, que precisa da experiência do artista. O mercado acaba misturando o novo e o velho, como se a arte fosse meramente uma mercadoria. Mas não é.

Entrevista e fotos: Thomas Milz

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