ed 01/2018 : caiman.de

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[art_3] Brasil: Viajando pelo Norte e Nordeste brasileiro

Viajar é sempre bom. Mesmo que seja uma viagem a trabalho, mesmo que você passe horas no vôo, mesmo que o aeroporto esteja um caos e que sua mala seja extraviada, ainda assim eu busco tirar proveito de tudo positivo de uma viajem. Viajar é, para mim, a possibilidade de encontro com o outro desconhecido. E, ainda bem, há sempre grandes surpresas.

Nos últimos três anos, eu tenho um total de 38 viagens. Isso significa que matematicamente falando eu teria um pouco mais que uma viagem por mês, que não aconteceu porque na verdade, passei períodos de ter duas ou três viagens no mesmo mês! Haja chão, haja céu anil e haja malas para arrumar! O bom é que todas as idas e vindas marcaram grandes encontros e despedidas com pessoas de regiões geográficas distintas apesar de comporem o ‘único’ território nacional do meu país e, no Brasil, o meu caminho de flores e pedras, em sua maioria, foi percorrido nas regiões norte e nordeste.

Eu sei que alguns amigos vão dizer: ‘- Ah, não vale, Karina é bairrista!’ Mas o fato é que para além do meu bairrismo assumido hoje os números apresentam 11 viagens para o norte e nordeste do país confirmando assim uma das célebres frases de minha avó: “O rio só corre pro mar”. E sendo eu uma filha das águas (doces e salgadas) só posso achar que correr para o mar é um bom negócio!

Então, para o texto de hoje eu decidi focar no trabalho de algumas pessoas que encontrei no meio do caminho. Pessoas que migraram, que emigraram e que em distintos pontos resolveram construir o seu lar. Além disso, vou tentar botar no papel a impressão que tive das coisas que vi, dos pratos que comi, dos amigos que fiz e dos amigos que revi. Sejam bem-vindos a minha grande viagem...



Eu nunca quis outra coisa que não Santo Amaro. Santo Amaro da Purificação! Sempre amei o rio Subaé mesmo com toda a poluição que há dentro dele e mesmo com as enchentes que aconteciam e que me colocava louca de preocupação com a minha avó e meus tios. Amo o passeio no mangue, atolar na lama, pegar caranguejo, aratu, lambreta e mapé. Adoro estar na praça com o chafariz ligado, colocar a cadeira na porta, prosear com quem passa e fazer feira. Desde menina vivia em Salvador esperando o final de semana para estar em casa, ali é, de fato e de direito, o meu lugar.

Cresci, fiz faculdade, viajei muito pelo interior da Bahia e resolvi que queria um pouco mais da vida. Ainda não sei direito o que é esse tal de ‘mais’, mas o fato é que fui fazer mestrado em São Paulo, mestrado na USP e na ‘cidade grande’. Ressalto esses dois fatos porque minhas viagens pelo país começaram no meu último ano de graduação na Bahia e se intensificam com a minha chegada em São Paulo.

Estar na Bahia não é uma coisa fácil, mas sair dela também não é a delícia do universo. O norte-nordeste do meu país, de modo bem generalizado, tem a marca de extrema pobreza e da força daquele que é desprovido de quase tudo e mesmo assim acredita que tudo vai dar certo... e essas duas regiões geográficas surpreendem!

Minha primeira ida para o norte foi para Boa Vista - Roraima. Lá, por ironia do destino, a diretora do museu que me recebeu se chama Elena (exatamente como minha filha) e a filha dela se chama Karina, como eu... e claro que ficamos muito amigas!

Foi lá também que tive a minha primeira grande turma para uma oficina de documentação de acervo museológico e onde, mesmo sem contar com a presença de um técnico da área, tive as fichas de documentação mais bonitas do mundo! O carinho, o capricho e a determinação de todos os presentes me marcaram profundamente. Além disso, a cidade de Roraima tem as suas particularidades que me fariam, certamente, querer morar lá. Boa Vista tem o horizonte mais incrível que eu já vi. Como está situada na altura da linha do equador, o céu de lá é uma verdadeira abóboda. Quanto os artistas renascentistas dariam para retratar com profundidade aquele espaço celestial? Eu desconheço um céu como aquele!

Todos precisam ir um dia e ver a noite estrelada nas savanas porque por melhor que sejam as minhas palavras sei que faltarão muitos detalhes presos nas batidas do meu coração. Eu sei que gosto do céu de Santo Amaro pelos testemunhos da passagem da minha vida por lá, sei que gosto da letra da música de Caetano ‘Céu de Santo Amaro’ que retrata com poesia o teto do nosso lugar, mas o céu de Roraima tem uma quantidade de estrelas antes nunca vista por mim e não sei o que brilha mais: se o céu com as constelações ou os vagalumes que piscam nas savanas no meio do nada e no centro de tudo. A Elena eu sou grata por mais isso também!

E a comida? Depois de um longo período sem frutos do mar, poder comer peixe é uma benção e quem é do mar não enjoa! Eu comi costela de tambaqui! Costela mesmo! O peixe é tão ‘pequenininho’ que as espinhas gigantes permitem que a criatividade nomeie o prato como costela de tambaqui! Uma de-lí-ci-a! Em Roraima meu lado mais indígena esteve aflorado no tacacá, na farinha, no colar dos Yekuanas, no acervo do museu e no café da manhã mais maravilhoso do hotel Uiramutã. Oh gente, tinha beiju e banana da terra frita do jeito que só vovó faz! Eu juro que beijei a cozinheira do hotel pela delícia proporcionada! Na mala muitas lembranças das terras de lá.


Curiosidade mesmo eu tinha pra conhecer Manaus - Amazonas porque no imaginário popular do mundo todo Manaus é terra de índio e de floresta fechada e mesmo estando no Brasil, onde as distâncias são enoooorrmeeessss, o imaginário popular não é muito diferente! No entanto, Manaus não é só isso! É isso e muito mais. Dá licença que eu vou apresentar! Manaus é a terra das águas, dos grandes rios, de grandes peixes, de farta cultura popular e de uma riqueza humana extraída da floresta que nas outras bandas desse mundo de Meu Deus ninguém há de encontrar! Não é à toa que o mundo todo quer um pedacinho de lá.... sai pra lá olho grande! Arruda e sal!

Manaus tem a mais bela arquitetura tipicamente brasileira: ‘O Teatro Amazonas’. E eu vi aquilo tudo de perto. Tão incrível quanto ver as pinturas de Van Gogh em Amsterdã e tão sensacional como visitar um castelo medieval na Alemanha é ver de perto as cores tão brasileiras da cúpula de um teatro que foi erguido com o sangue da borracha e que poucos brasileiros conhecem apenas nas imagens dos livros de arte. Naquela aquarela meu Brasil foi mais brasileiro...

Acompanhando as cores da cúpula, os prédios históricos da cidade também apresentam as cores do chão daquele lugar, vale à pena demais ver os tons de rosa, de verde, de vermelho e de amarelo! Um espetáculo à parte! A comida não me trouxe muita novidade porque já havia estado em Roraima, mas a bebida teve gosto de infância, mais precisamente gosto de tubaína! Quem é brasileiro sabe do que estou falando!!!! Em Manaus há a produção de refrigerante com o mais verdadeiro guaraná. Somente em Manaus é possível beber Tuchaua e Baré! Minha felicidade era tanta que eu trouxe na mala quatro litros para distribuir para alguns amigos e combinar com minha filha e meus sobrinhos um momento para comermos pizza, bebermos guaraná da Amazônia e conhecer um pouco de lá. Como professora, não podia perder a oportunidade de dar uma pequena aula para os meus pequenos! A desculpa foi boa, eles adoraram o guaraná!


Em Manaus eu também fui muito bem recebida, aliás, que me desculpem os mau educados, mas boa educação é fundamental e os povos do norte-nordeste do país sabem fazer isso com maestria. Claro que isso não significa que fui mal recebida nas demais regiões do país, não é isso, mas é que no norte e nordeste isso é especial e eu já tinha anteriormente assumido meu bairrismo.... É verdade! Como também é verdade que aqui a gente não permite que ‘os outros’ apontem os nossos supostos (eu disse supostos) defeitos!

É também na Floresta Amazônica que há a museologia da floresta mais séria que já conheci. Uma museologia composta de três antigas museólogas que migraram e lá fizeram a sua morada.

Três museólogas que ganharam mais uma para o quadro profissional. Foi em Manaus que tive no grupo de alunos a presença de uma amiga tão baiana quanto eu e que por hora também ocupa as bandas de lá. Lívia não sabe, mas foi extremamente importante pra mim encontrar os meus também por lá... Agradeço, de coração, aos profissionais da cultura que conheci o empenho, a força e a garra para desenvolver grandes projetos e realizar, algumas vezes quase sem verba, sonhos que me fazem pensar que vale à pena todos os esforços para estar fora de casa por tanto tempo. Para Jane meu beijo mais carinhoso!

Saindo do Norte do país e chegando ao nordeste eu vou me poupar de rasgar todas as sedas do mundo para falar da Bahia porque todo mundo já sabe que o paraíso é aqui! Como diz o slogan do atual governo: Bahia, terra de todos nós! É isso...

Vou me ater a Sergipe e Paraíba, mais precisamente Aracaju e Campina Grande. Respectivamente, Aracaju: o lugar onde iniciei meu trabalho como oficineira do ibram, antes DEMU, e Campina Grande: destino feliz que pude ter o prazer de conhecer, depois de estar há dois anos fora do nordeste, tomando algumas porradas em São Paulo.


Iniciar em Aracaju foi feliz pela turma, pela acolhida que recebi de Teresinha e pela presença marcante de Ruiz. Posso dizer que comecei com o pé direito! Tudo em Aracaju é bom: tem praia, tem lagoa e cachoeira! Tem todas as delícias de Salvador num preço mais acessível e sendo assim vou sugerir a vista do farol, o melhor caldo de camarão do nordeste e o peixe frito na beira-mar. Sergipe é assim mesmo: meio Bahia! E apesar das rivalidades, eu particularmente acho que a Bahia também é assim, meio Sergipe!

E a Paraíba masculina mulher macho sim senhor!? Chegar à Paraíba foi um bálsamo! Eu parecia pinto no lixo arrumando as malas e sonhando com o calor.

Coloquei na mala todas as blusinhas e vestidos que já estavam perto de mofar no guarda-roupa frio de São Paulo e fui bem feliz! Sol, quando a gente ama é LUZ!

Eu fui bem feliz por lá. Um povo animado, festeiro como eu e altamente comprometido com a vida. É gozado, mas há quem ache que nesse Brasil só há trabalho e seriedade no sul e sudeste do país como se no restante só houvesse os mitos, a preguiça e muita brincadeira... é lamentável. Da Paraíba trago a mala que paguei com excesso de bagagem só por causa da ida à feira... Trago o doce do melaço e da rapadura, o salgadinho do queijo-coalho e da carne de sol, o cheiro forte da legítima cachaça: a brasileira e o chaveiro de minha amiga Laudereida!

Termino sem concluir que é para todos sentirem na boca a vontade de experimentar o que há a mais por lá... continuo as minhas andanças e sigo fazendo meus pobres registros. Aqui deixo apenas o link para o blog que adoraria divulgar mais, e mais, e mais: http://museologiadafloresta.blogspot.com/

Aventure-se, pode ser sensacional!

Texto + Fotos: Ana Karina Rocha de Oliveira
Foto Santo Amaro: Thomas Milz

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