ed 09/2010 : caiman.de

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[art_3] Brasil: E o vento levou
O sofrimento da Caatinga
 
Amo a caatinga! Amo aquela terra seca, cheia de arreia, com cores de ocra…. Amo o céu, quase sempre num azul de brigadeiro…. Amo os arbustos secos, os mandacarus, amo o sol que nunca arde, mas sempre lambe a pele de uma forma tão delicada. Amo os eternos ventos, varrendo e vagabundando pela paisagem. E o nascer do sol, sempre um espetáculo.

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Adoro pegar o carro e seguir as estradas, sempre retas, por horas e horas, sem ver ninguém. A caatinga significa solidão, só umas cabras magras cruzam a estrada. Estou no caminho entre Juazeiro e Sobradinho, perto do Rio São Francisco e a Barragem de Sobradinho, erguida 30 anos atrás, e hoje o segundo maior espelho de água do mundo. Olhando pela paisagem, me sinto no paraíso.

Mas, como vocês devem saber, o caminho entre o paraíso e o inferno é curto. De repente, me encontro no meio de um deserto de lixo. O vento leva os sacos de plástico consigo, as arvores e mandacarus cobertos dos restos inúteis da nossa modernidade. Paro o carro para tirar fotos desta monstruosidade. 

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Um homem procura algo útil entre os resíduos, cata o que ainda dá para vender. Quando me vê, se afasta. Do outro lado da estrada vem fumaça, alguém está queimando o lixo junto com a vegetação sequíssima. Com o avanço da fumaça, fica cada vez mais difícil respirar.

De atrás da fumaça vem o barulho de um carro freando. Quando me viro, vejo um cavalo atravessando a estrada, e um jipe em alta velocidade tentando desviar do animal. O carro sai da estrada e vem na minha direção. Pulo, no último momento, e o jipe passa entre eu e meu carro. 

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Depois de mais alguns metros, o carro finalmente para. "Você viu - o cavalo apareceu do nada….." O motorista olha seu carro para ver se está tudo okay. Parece que o radiador quebrou, ele diz. Mesmo assim, muita sorte para todos, heim? Sim, muita mesmo, confirmo.

Aqui estamos nós, no meio de uma fumaça tóxica, num mar colorido de lixo, no meio do nada. Sim, é triste ver uma paisagem assim, ele diz. O pessoal que mora nas cidadezinhas da região costuma jogar seu lixo na caatinga, sempre foi assim. E ele segue seu caminho, eu também. O cavalo avança lixão adentro. Na procura de quê, me pergunto...

Texto + Fotos: Thomas Milz

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