ed 07/2016 : caiman.de

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[art_2] Brasil: Bois don’t cry
Back to Bumba meu Boi em Parintins

As ruas alagadas, uma brisa fria. Na minha memoria, Parintins era um forno com bafo de ar quente. Agora, me parece agradável. Perfeito assim. Na minha memoria, as casas da cidade apareceram todas de azul e vermelho, pintadas conforme as preferencias dos moradores: azul para quem ama o Boi Caprichoso, vermelho para os amantes do Garantido. Agora, vejo poucas casas pintadas, poucas com enfeite do maior festival folclórico no Brasil, como orgulhosamente diz a propaganda oficial do Boi Bumba 2016.

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Fala-se em crise, que o festival quase tinha que ser cancelado, por falta de verba. Poucos dias antes do festival, o governador tirou a verba prometida. Briga política, comentam os moradores. O governador em Manaus não gosta do prefeito de Parintins, que é de um outro partido. Coisas do Brasil, onde os políticos sempre enxergam apenas o próprio umbigo.

“2016 foi um ano de superação”, diz o locutor no Bumbódromo, aquela arena gigantesca no meio da cidade. Não a lembrava tão gigante. 35.000 mil pessoas. Uau! Mas me lembrava da sensação quando os tambores entram, das músicas empolgantes, do público que pula durante toda a apresentação. Duas horas e meia, três noites seguidas, com roteiros diferentes. Incrível. Não apenas uma ópera numa ilha no meio do Amazonas. Não, são seis óperas diferentes, apresentadas em três noites seguidas.

E aí Sambódromo, e aí, Carnaval do Rio, onde se tem uma única musica, cantada durante oitenta minutos, sempre a mesma. E onde a coreografia é feita pelos dez membros da comissão de frente, enquanto os outros milhares de desfilantes apenas desfilam, quer dizer correm a toa pela avenida. Prefiro o boi, com milhares de pessoas seguindo diversas coreografias.

Aliás, a história do boi é bem simples. Vem do nordeste, onde o Bumba meu Boi nasceu. É mais ou menos assim: o cara deveria tomar conta da fazenda, mas aí a esposa grávida fica com larica, quer comer a língua de um boi. E tem de ser justamente o melhor boi da fazenda. Ao invés de desconversar com a esposa e explicar todas as possíveis implicações do ato, o cara simplesmente mata aquele boi super-fantástico.

Óbvio que isso não agradaria o dono da fazenda. Agora a ficha cai, e o cara pede ajuda aos xamãs, espíritos e animais mágicos para reanimar o boi. Claro que agora já é tarde. Tarefa difícil, claro. Aí precisa de milhares de figurinos que dançam e pulam por três dias. Finalmente, parece que o boi volta. Com ou sem língua, aí não sei.

Bom, tudo vale a pena. Carros alegóricos fantásticos, centenas de dançarinos, e, claro, a cunhã poranga, a mulher bonita, em tupi. E tem muitas, fantasiadas, cheias de penas, lindas. São rainhas, de olhos puxados e cabelo preto comprido. Dançam descalças. Me apaixonei, agora como na minha primeira visita.

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Foi em 2002, poucas semanas depois de eu ter chegado a São Paulo. Queria trabalhar como jornalista, e aí apareceu um convite do governo estadual para conhecer o festival. Parece que naquela época os governantes foram mais generosos.

Viajei com um grupo de jornalistas, um bando de amigos. Turma maravilhosa. Nosso voo de Manaus para Parintins atrasou cinco horas, me parece. Um urubu tinha entrado na turbina, assim mandaram um avião reserva de São Paulo para Manaus. Quando finalmente pousamos na Ilha, o primeiro boi já estava dançando. Fomos direto para a arena. Na entrada, enchi minha mochila de latas de cerveja. Alguns de azul, outros de vermelho. O patrocinador queria agradar as duas torcidas. Me agradou, e muito.

Naquele calor infernal, tomei todas rapidamente. Depois tentei tirar fotos, com minha máquina simples, de filme de 36 imagens. Tinha três filmes. Naquela época, os jornalistas ainda puderam entrar na pista, no meio do espetáculo. Me aproximei dos figurinos, para sacar fotos, e levei muita bronca. Vi um fotógrafo careca, que me parecia familiar. Como tinha chegado ao Brasil apenas umas semanas antes, concluí que eu o conhecia da Alemanha. Falei em alemão com ele. Levei olhares feios. Depois descobri que o nome dele era Sebastião Salgado. Fazer o que?

Quando os três filmes de 36 tinham acabados, continuei tirando fotos com minha máquina de mergulho. Acho que no total, apenas três ou quatro fotos ficaram bons. Decidi comprar uma máquina profissional.

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Assim, eu poderia ter tirado fotos legais agora, na minha volta à Ilha, 14 anos depois. Mas descobri, uns dias atrás, que minha câmera profissional está com um defeito, e levei uma digital simples. Está vez, salvarem-se oito ou nove fotos. Vocês as podem conferir aqui. Quem sabe um dia eu volto outra vez, para finalmente cobrir o festival com uma máquina fotográfica decente. E para solucionar a questão da língua do boi. E para me casar com a cunhã poranga..

Texto e fotos: Thomas Milz

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