ed 07/2008 : caiman.de

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[art_3] Brasil: A primeira vez
Há 50 anos: Pelé, Garrincha e Zagallo ganham a primeira copa para o Brasil

Era uma vez uma época em que a Alemanha era campeã do mundo e o Brasil não. Mas já se passaram cinqüenta anos.

Quando, no começo de Junho de 1958, a sexta copa do mundo começou na Suécia, a Alemanha chegou para defender seu titulo. Enquanto isso, a seleção brasileira era uma grande desconhecida.

Só que com o apito final naquele domingo, dia 29 de Junho de 1958, o mundo de futebol viu-se profundamente revolucionado. Brasil foi o novo gigante, e a „geração Pelé”, daqui em diante, iria dominar o mundo do futebol por mais 12 anos. Para os velhos heróis alemães, que, quatro anos antes, fizeram o “milagre de Berna”, restou, ao menos, um quarto lugar.

Antes do inicio da copa de 58, quase ninguém no Brasil acreditou que a seleção iria longe. O ponta esquerda da então seleção, Mario Zagallo, hoje com 76 anos, se lembra das duvidas na sua terra natal antes do torneio: Nós perdemos a copa de 50 no Maracanã, no Brasil. Depois fomos a Suíça, em 54, e não fizemos um bom desempenho - saímos logo. E quando nós fomos em 58, o Brasil nunca tinha ganho uma copa do mundo, então ninguém acreditava. Assim, não saímos com aquele peso nas costas de ter uma obrigação de ganhar. Isso foi até bom.


Pois foi a primeira vez. Muita gente da imprensa que estava naquele avião falou: nós já compramos a passagem de volta. Eu disse: está bom, vocês não acreditam, mas nós, que vamos jogar, estamos acreditando.

Nos cinco torneios que aconteceram antes, a campeã sempre veio do continente onde aconteceu a competição. Na América do Sul, foi Uruguai que ganhou, em 1930 no próprio pais e, em 1950, no Brasil. Na Europa, a Itália venceu o torneio de 1934, na Itália, e, em 1938, na França. E em 1954, na Suíça, foi a vez da Alemanha se tornar campeã.

Além disso, atribuia-se aos brasileiros um suposto „complexo vira-lata“.

O jornalista Juca Kfoury: O que se dizia nos anos 50? Quando chega lá fora, o jogador brasileiro estranha, sente frio, não gosta da comida, tem medo diante dos alemães, „olha o baita alemão, loirão de olhos claros, saúde de vaca premiada“, como dizia Nelson Rodrigues. E? Diminuiu o complexo de vira latas.

Responsável por isso foi UM HOMEM. A bordo do avião da VARIG que levou a seleção para a Europa estava um jovem jogador que, no Brasil, já tinha causado euforia. Mas internacionalmente ainda era desconhecido e esperando sua prova de maturidade: Edson Arantes do Nascimento, atacante milagroso do Santos Futebol Clube, conhecido como Pelé. Muitos jornalistas duvidaram: ele ainda é jovem demais e não agüenta a pressão de um torneio tão importante. Ou era, até, infantil demais, como argumentou o psicólogo da seleção.

E tinha outro craque malvisto a bordo: Manoel dos Santos, conhecido como Garrincha, vinte e quatro anos e com pernas completamente tortas. Alem disso, com o pélvis desequilibrado em forma de um „S“. Mas, como ponta direita, o mundo nunca viu nada igual.

Alem das „armas milagrosas“ Pelé e Garrincha, o treinador Vicente Feola, chamado de „o gordo“, chegou na Suécia com uma inovação tática.

Ao invés de marcar cada jogador adversário através de um sistema tático estático, Feola mandou o time fechar e abrir as zonas de defesa e de ataque. Para isso, dois meio-campistas voltaram na hora de defender, enquanto dois meio-campistas viraram atacantes, na hora de atacar.

Mario Zagallo se lembra: Nós não fomos sempre dentro de um 4-2-4. Mais para um 4-3-3. Nos defendíamos dentro de um 4-3-3, e atacávamos num 4-2-4. Eu saindo do meio campo indo para a ponta esquerda. E o Didi saindo do meio campo entrando. Então, dois jogadores do meio de campo saiam pro ataque também, junto com os três que já estavam lá na frente.

Era uma diferença bem grande. Por que se jogássemos no 4-2-4, nós ficávamos muito fracos no setor defensivo. E nós tínhamos jogadores de decisão, quando o Brasil tomava a posse de bola, de envolver o setor defensivo das outras seleções, pela qualidade técnica.

Isso facilitou para nós e dificultou a vida dos adversários. Quando pegavam a posse da bola, nós tínhamos sete jogadores atrás. Isso foi fundamental para nós conquistarmos este titulo.

As equipes européias ainda jogaram ou no tradicional 2-3-5 ou no sistema W-M (3-2-2-3). Assim, foram surpreendidas pelas avalanches brasileiras. Não conseguiram avançar pela forte defesa brasileira, só para enfrentar, no contra-ataque, a metade dos jogadores brasileiros rente ao próprio gol.

No primeiro jogo, a forte Áustria, tida como uma das favoritas do torneio, foi atropelada por 3 a 0. Neste jogo, Feola ainda não colocou Pelé no campo, que chegou na Suécia com um joelho machucado. E também não colocou Garrincha, que, para muitos, inclusive Feola, era doido demais. Endoidecia a defesa adversária como também, ao mesmo tempo, o próprio time. Pois Garrincha fazia dentro do campo (e fora do campo também) o que ele quis e o que passava pela cabeça dele. Um pesadelo para um técnico que chegou com uma táctica bem elaborada.


Só depois de segundo jogo contra a Inglaterra, que terminou empatado sem gols, „o gordo“ resolveu colocar Pelé e Garrincha na equipe principal. E os dois deslancharam feito foguete. Até hoje, os primeiros minutos do jogo contra a União Soviética são vistos como um dos grandes momentos na historia das copas. Agora ficou claro para o mundo de futebol quem eram estes dois. Sergio Xavier, redator chefe da revista Placar de futebol:
A grande diferença foi uma diferença técnica e também muito do fator surpresa. Não se conhecia exatamente Garrincha, e não se conhecia exatamente Pelé. Cada adversário que enfrentou o Brasil ia descobrindo na hora que eles eram muito grandes. E, aliás, foram crescendo durante a competição.

Para não ser atropelado igual à União Soviética, o time do País de Gales, adversário da seleção nas quartas-de-finais, colocou quase o time inteiro na defesa. Brasil lançou um ataque atrás do outro contra o gol daquele time, até, finalmente, vencer o bloqueio adversário apos de 65 minutos. Pelé fez o 1 a 0, seu primeiro gol nesta copa.

O País de Gales havia mostrado como parar a seleção brasileira – pelo menos por um bom tempo. Mas os próximos adversários não tiraram conclusões disso. Os dois times que o Brasil enfrentou depois das quartas-de-finais jogaram bem abertos – e foram severamente punidos por tal atitude.

Mario Zagallo: A França e a Suécia vieram bater de frente, jogando totalmente aberto contra a seleção brasileira. Então era um visual mais bonito, porque os dois times jogaram e deixaram jogar. E nós levamos uma vantagem muito grande, porque a qualidade do material humano do Brasil era superior. Portanto nós ganhamos de 5 a 2 da França.

O jovem Pelé contribuiu com três gols no segundo tempo para a vitória nas semi-finais contra a França. Assim, virou o novo rei de futebol para a imprensa internacional e o público. Chegou o dia da grande final, o 29 de Junho de 1958, em que a anfitriã Suécia, enfrentou a seleção brasileira, em Estocolmo. A Suécia havia eliminado, na outra semi-final, a Alemanha por 3 a 1 – um jogo que entrou na historia das copas como „o escândalo de Göteborg“.

Mario Zagallo se lembra da escalação da seleção brasileira para o jogo da final: Jogou Gilmar, Djalma Santos, Bellini, Orlando e Nilton Santos, no meio campo Zito e Didi, alem de Garrincha, Pelé, Vavá e Zagallo; aliás o mesmo Zagallo que está aqui conversando com vocês.


Logo após cinco minutos, a seleção levou um forte susto: Liedholm fez o 1 a 0 para a Suécia. O entusiasmo da torcida sueca entre os 50,000 espectadores no estádio de Rasunda explodiu. Para os brasileiros, o momento lembrou uma tragédia nacional que tinha ocorrida oito anos antes, no estádio de Maracanã, no Rio de Janeiro: a derrota contra o Uruguai na final da copa de 50.

Zagallo: A Suécia fez o primeiro gol. Quando a bola entrou, me veio um filme na minha cabeça: a copa do mundo de 50. E pensei: será que nos vamos perder novamente essa copa? Isso pensei em frações de segundos. Quando Didi ia lá no fundo do gol para pegar a bola e vinha na cadencia lenta, eu saia da ponta esquerda e fui encontrar com ele. „Vamos, estamos perdendo!“ E ele disse „calma, vamos ter tranqüilidade e vamos virar isso.“ E não deu outra.

A seleção ganhou a final de 5 a 2, e o país inteiro virou de cabeça para baixo. Havia nascido um novo gigante de futebol. Sem grandes problemas, a seleção defendeu seu titulo quatro anos depois, na copa de 62, no Chile. Só quando quase o mesmo time fracassou, quatro anos mais tarde na copa de 66, na Inglaterra, viu-se que a época daquele time havia acabado. Apenas Pelé, o mais novo da turma, teve outra chance de defender seu país numa copa do mundo – e fez bonito. Aos 29 anos, levou a seleção ao tricampeonato no México, na copa de 70. Seu terceiro titulo de campeão do mundo.



Naquela copa de 70, Mario Zagallo já não jogava mais, mas estava lá, como técnico da seleção. Assim, foi o primeiro que conquistou o mundial como jogador e técnico. Só vinte anos mais tarde Franz Beckenbauer repetiu este feito.

Mas o histórico de Zagallo é impecável: ganhou dois mundiais como jogador, o de 58 e o de 62, um mundial como treinador (1970), ficou vice em 1998, alem de ganhar o mundial de 94 como assistente.

Zagallo e Pelé são uns dos poucos dos heróis de 58 que conseguiram estabelecer-se também fora do campo. Muitos dos heróis se afundaram na vida e caíram na pobreza e no esquecimento.

Para a atual geração de jogadores, que faturam salários milionários, tal destino é quase inimaginável. Antigamente, acredita o jornalista Juca Kfoury, foi uma honra jogar pela seleção. Hoje, é uma chance de faturar milhões: Ai entra para mim a diferença da visão do mundo. Aqueles caras tinham no futebol a razão de ser deles. Fazer propaganda era uma vez na vida e outra na morte. Uma coisa que acontecia na vida de cada um deles. Estes de hoje fazem do futebol um meio – o futebol não é o fim. Por que o contrato da Nike ou da Audi é o mais importante.

Grande parte dos heróis de 58 já morreu ou vive doente. Garrincha bebeu até entrar em coma, depois de seu joelho machucado não o deixou mais jogar e a grana acabou. Em apenas quatro anos, foi internado quinze vezes por causa de álcool. Morreu em 1983, com apenas 49 anos, depois de seu ultimo excesso de bebida.

Mario Zagallo: Meu sentimento de hoje? E gostaria que pudesse passar tudo de novo. Viver aquela gloria, a felicidade que eu tive. Mas esta não é a realidade. Isso é um sonho que não pode se transformar em realidade. Mas a realidade existe. Nós todos vamos ficar na historia do futebol mundial. Essa é a realidade.


Texto e Fotos: Thomas Milz

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