ed 04/2010 : caiman.de

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[art_2] Brasil: A cultura - O que é cultura?
 
São múltiplas as formas de se definir e conceituar cultura. Os esquimós identificam branco com mais de uma centena de palavras. Na Europa, a Cultura do Corpo Livre - FKK (Freikörperkultur) é a forma que designa a liberdade da nudez praticada por adultos e crianças. A sensibilidade do sambista Candeia, para mostrar a cultura popular, que ninguém vê, nos ensina que "Cego é quem vê só aonde a vista alcança (...) e mudo é quem só se comunica com palavras". O dicionário do Houaiss verbaliza "culturalizar – verbo transitivo direto: expandir, aprofundar (uma cultura) de maneira institucionalizada, por meio de redes de ensino e de instrumentos de informação, comunicação e divulgação, orais, escritos, icônicos, imaginários, ideológicos, políticos, éticos", cujo antônimo é descultura, incultura.


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E os teóricos e estudiosos da cultura, o que eles dizem?

Santaella, para falar de cultura, usa a metáfora "vida", e relata através de João Cabral de Melo Neto: "porque é muito mais espessa a vida que se desdobra em mais vida, como uma fruta é mais espessa que sua flor". Relata Paul Valéry para quem cultura é a morada do espírito, então, cultura é mistura. Lembra que os antropólogos Kroeber e Kluckhohn, demonstraram 164 definições diferentes do que é cultura e conclui que, embora seja difícil definir o que é cultura, ela está em tudo, exceto no que se pode pegar. Em Seu livro "Cultura das mídias", mostra a época em que começou a transformação da hegemonia da cultura de massa e fala da "cultura das mídias", expressão assinada pela autora, para designar uma cultura intermediária, nem cultura de massa, nem cultura digital, fica no limiar que brota nos "processos de produção, distribuição e consumo comunicacionais", distintos da cultura de massa. Culturas visitadas para identificar "cultura de mídia": oral, escrita, impressa, de massa, das mídias e digital. Difere a cultura de massa, onde o sujeito é passivo e mostra a possibilidade de escolhas entre aparelhos de vídeo, walk talk walkman, clips e games, seguidos de filmes de em vídeo (locadoras) e o surgimento da TV a cabo onde o sujeito antes passivo, agora, tem a possibilidade de escolher o que quer assistir; consumo individualizado em oposição ao consumo massivo, remodelando a inércia da recepção para a busca do que desejamos. A informação, que circula muito rápido em função da tecnologia, hoje, gera conhecimentos estratégicos. A informação é a nova "palavra de ordem". Barack Obama em sua candidatura à presidência dos USA fez circular a informação e se aproximou do eleitor.


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Silva compreende que ser cibercidadão, é ir além de estar conectado e ser consumidor online, não está dissociado da atuação nas redes presenciais do espaço urbano, "a inclusão meramente tecnológica não sustenta a cibercidadania". Leva entende que o ciberespaço, por possibilitar uma comunicação interativa, operativa e colaborativa, impõe o rompimento no paradigma da mídia de massa, baseada na transmissão. Lemos compreende o acesso e possibilidade de modificação dos dados, e denomina de "cultura pós-massiva", onde o usuário sai da cadeira de mero e inativo receptor e faz seu próprio veículo. Para Eagleton a cultura "chega intelectualmente a uma posição de destaque quando passa a ser força politicamente relevante, "baseia-se assim, em uma alienação peculiarmente moderna do social em relação ao econômico". Cultura significa dupla recusa: do determinismo orgânico e da autonomia do espírito, nos transfere do natural para o intelecto. A rivalidade entre Alemanha e França mostrava a diferença entre a "cultura" germânica e a "civilização" francesas, onde, a civilização minimizava as diferenças nacionais e a cultura acentuava. Na virada do século XIX, cultura deixa de ser sinônimo de civilização e passa a ser antônimo. Edward Said sugere que "todas as culturas estão envolvidas umas com as outras; nenhuma é isolada e pura, todas são híbridas, heterogêneas, extraordinariamente diferenciadas e não monolíticas". Eagleton defende a tese que "estamos presos a uma noção de cultura debilitantemente ampla e outra desconfortavelmente rígida", e que precisamos ir além e resume a cultura "como o complexo de valores, costumes, crenças e práticas que constituem o modo de vida de um grupo específico.


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Canclini, quando fala de cultura e consumo, sugere que o consumo serve para pensar. "O consumo é o conjunto de processos socioculturais em que se realizam a apropriação e os usos dos produtos", pois entende que" a comunicação não é eficaz se não inclui também interações de colaboração e transação entre uns e outros. Processos de comunicação e recepção de bens simbólicos". Decorar a casa com objetos, o lugar e significado das coisas, "assinala-lhes um lugar em uma ordem, atribui-lhes funções nas comunicações com os outros, são os recursos para se pensar o próprio corpo, a instável ordem social e as interações incertas com os demais".

Canclini propõe: "Vincular o consumo com a cidadania requer ensaiar um reposicionamento do mercado na sociedade, tentar a reconquista imaginativa dos espaços públicos, do interesse pelo público. Assim, o consumo se mostrará como um lugar de valor cognitivo, útil para pensar e atuar, significativa e renovadoramente, na vida social".

De acordo com o relatório da IBGE/PNAD, na média nacional, o percentual de domicílios brasileiros com televisão é de 94,8% e supera os domicílios com filtro de água 51,1%. A televisão aparece como um bem de consumo mais importante do que a qualidade da água que é consumida. Anúncios em horários nobres ou em determinados programas possuem sucesso garantido. Se a televisão é utilizada com eficácia para o futebol, a novela e o estímulo ao consumo, como é usada nos processos de fazer circular os sentidos, no entendimento, uso e crítica, enfim, no acesso à informação, no possível exercício de cidadania? A televisão não é só um bem de consumo, com ela, são vendidos "valores".


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A preocupação com as emissões televisivas não é recente. Desde as primeiras emissões, dois diferentes modelos de fazer televisão vêm se aprimorando: um modelo comercial ligado à utilização da mídia no espaço de veiculação das necessidades do mercado, e o modelo educativo, ligado à utilização da televisão para fins de difusão de valores, ideais, cultura e educação. Mesmo na Europa, onde a televisão pode ser um exemplo do modelo educativo, as críticas à má qualidade do que era veiculado se inicia quase ao mesmo tempo das primeiras transmissões.

Entre os maiores críticos da televisão enquanto mídia de massa está a Escola de Frankfurt. Adorno que cunhou o conceito de indústria cultural em 1947; em seu estudo sobre televisão americana, pergunta: How to look at the television? (Como olhar a TV?) Questionava: como ver televisão sem ser iludido? Como ver televisão sem se subordinar à televisão como ideologia? Compreende a "televisão como ideologia", e com grande influência sobre as pessoas, com a tentativa de incutir falsa consciência, ocultando a verdade, impondo valores, e desviando as pessoas do que é essencial e prioritário. A TV se converte através da fartura de sua oferta, no único conteúdo da consciência.

Depois de sair da Alemanha, marcado pela propaganda nazista cujo mentor usou e abusou do público, através dos meios de comunicação de massa, de forma precisa, Adorno em debate transmitido pela Rádio Hessen em 1969, afirma que "A exigência que Auschwitz não se repita é a primeira de todas para a educação", o mundo conhece bem (?) essa parte da história. Goebbels iludia: "uma mentira dita várias vezes, se torna uma verdade". É esse o segredo da propaganda: atingir aqueles que a propaganda quer atingir, intoxicá-los com as idéias veiculadas sem que eles o notem. "Claro que a propaganda tem um objetivo, mas esse objetivo tem de ser tão bem camuflado que aqueles que o devem absorver não se apercebam de nada" (Discurso de Goebbels). O poder da mídia em geral, do rádio, jornais e televisão são dados. Roubo ou depósito de idéias? A sedução das imagens está aí. Como usar a TV com fins educativos?


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O público telespectador era visto como uma massa amorfa, acrítica, que usava a programação como modo de entretenimento. Mesmo hoje, a TV é alvo de profundas críticas e sua utilização para fins educativos ainda é feita debaixo de desconfiança. As pesquisas sobre televisão no século passado concentraram-se na análise de seus produtos e foram feitas, sobretudo na área da Comunicação. Muito se investiu em avaliar os produtos televisivos buscando uma maior qualidade de programação ou na inovação tecnológica. Os produtores e programadores das tecnologias de vídeo parecem apenas se importar com a inovação tecnológica, enquanto o uso social das potencialidades técnicas parece fora de seu interesse. Já no final do século passado, alguns autores propõem modificar o foco das pesquisas dos produtos televisivos para os usos que os telespectadores fazem do que assistem. A tradição que veio a se chamar Estudos Culturais Latino-Americanos faz uma releitura dos conceitos de "massa" e "comunicação de massa" atribuindo sentidos positivos a esses conceitos.

Na visão de Martin-Barbero, a cultura de massa é a primeira a possibilitar a comunicação entre os diferentes estratos da sociedade e também a propor pela primeira vez, a possibilidade de pensar em positivo o que se passa culturalmente com a massa, aquilo de que se alimentam. Martin-Barbero vai além e defende que "estão redefinidos os sentidos tanto da cultura quanto da política, e do qual a problemática da comunicação não participa apenas a título temático e quantitativo – os enormes interesses econômicos que movem as empresas e comunicação – mas também qualitativo. Entende que na redefinição de cultura, o enfoque no decodificador, muda para produtor de significações. Martin-Barbero propõe um deslocamento dos estudos da comunicação "dos meios às mediações", fala dos marcos do debate sobre a "cultura de massa" expressão de Adorno. Comunicação de massa, "a massa convertida em público e as crenças, em opinião". Expõe o surgimento da palavra massa antes defendida "pela burguesia, mas a partir de então, vista como ameaça "à ordem social por ela e para ela organizada". E passeia, com muitas críticas, pela Escola de Frankfurt; Adorno e Horkheimer, Benjamin, da origem até a indústria cultural – cultura de massa. Tocqueville foi quem primeiro delineou uma nova relação entre a sociedade e as massas. "Pode-se separar o movimento pela igualdade social e política do processo de homogeneização e uniformização cultural?" Se antes as massas encontravam-se fora da sociedade, inclusive a ameaçavam com sua barbárie, agora essas massas se encontram dentro dessa sociedade, dissolvendo as relações de poder, causando uma desintegração da "velha ordem" social. A esse poder adquirido pela maioria, Tocqueville projeta a imagem de uma massa ignorante que gera a sociedade democrática que nasce nos Estados Unidos.


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Essa contradição se torna reveladora de um medo produzido pelas mudanças. Em "As condições da classe trabalhadora na Inglaterra", Engels vê na massificação das condições de vida o processo de homogeneização da exploração a partir da qual se faz possível uma consciência coletiva da injustiça e da capacidade das massas trabalhadoras para gerar uma sociedade diferente. A sociedade não impõe forma de controle social porque há uma crise política, crise "dos políticos". Martin-Barbero fala da crise do sistema de representação no qual se retira as transformações produzidas pela demanda social. Mudança profunda onde Deus é, segundo os modernos, "A sociedade". A mídia substitui a solidão, constitui um novo espaço de encontro de brasileiros que vêem a mesma novela, constituem uma espécie de comunidade. Sobre a televisão, Martin-Barbero propõe "partir das mediações, isto é, dos lugares dos quais provêm as construções que delimitam e configuram a materialidade social e a expressividade cultural da televisão" e identifica três lugares onde ocorre a mediação: o cotidiano familiar, temporalidade social e a competência cultural.

Formas, expressões, atos, manipulações e apropriações da informação e do comportamento mostram algumas "culturas". Cultura deve ser tudo o que significa...

Texto: Adir Glüsing
Fotos: Thomas Milz

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