ed 01/2018 : caiman.de

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[art_2] Brasil: Bairrista? Eu? Como assim...



Tenho um grande amigo que sempre diz: - Como você é bairrista! Eu nem me importo, amigo pode mesmo fazer essas coisas com a gente, mas só amigo muito amigo. O problema é que o maldito amigo disse isso para os amigos dele que, por sinal, acabo de conhecer. Muito amigo, não?! Tudo bem, passado o abacaxi pra mim, vamos ver a sobremesa que dá pra fazer...

Nesse dia estávamos na praia do Flamengo – eu sou tricolor da BAMOR, grito inclusive, Baêa -, mais precisamente na Barraca do Lôro. Sabe como é, né? Salvador tem praia pra todo lado, possui o maior metro quadrado de mar do Brasil! A Bahia é, por sinal, o estado que tem, em quilômetros, a maior costa litorânea e nós, pobres bairristas, aproveitamos... Bom, como ia dizendo, na tal barraca, a coisa é tão ruim que a decoração é assinada por Bel Borba. Lá tem tenda de massagem, espreguiçadeira de madeira forrada de esteira e almofada de chitão, água de coco, uma porrada de roscas, caranguejo, lambreta, casquinha de siri e etc, etc, etc. Depois ninguém entende porque tenho minha paixão visceral pela Bahia. Ah, tenha dó....

Mas graças aos orixás, os amigos do meu amigo estavam satisfeitos.

Era quarta-feira de cinzas em Salvador e eles tinham, utilizando a linguagem local, "capotado", "jogado-duro" no carnaval e, é claro, feito outras coisinhas mais que são censuradas pela última sinhazinha do recôncavo que vos fala. Não insista! Sou moça direita e mãe de família e essas coisas eu só falo no pé do ouvido...

É bem verdade, eles não reclamavam. Elogiavam a estrutura da praia, comparavam com a do Rio, se lambuzavam de lambreta com coentro, sorriam, mas eu achava que tava faltando alguma coisa. Como eles poderiam ter adorado estar aqui e estavam voltando pra casa antes do final de semana? Como? Esse pessoal não pode ser sério (sério de baiano) ou alguma coisa ficou a desejar... Minha intuição feminina dizia que ficou faltando aos rapazes uma arrochada "de com força" e eu, com minha boca grande, larguei: - E o arrocha? Aprenderam a dançar o arrocha? Foi minha derrota... e essa parte eu vou pular, mesmo porque, não sei dançar  arrocha, não tenho o CD de Silvano Sales "o cantor apaixonado", nunca assisti um show de

Nara Costa e nem participei de gincana no Colégio São Lázaro. Tudo mentira! Nego até a morte...

Na tentativa de aliviar a barra, eu pensei em começar a listar o que eles poderiam ter feito – de preferência a dois – mas o meu amigo, mais que amigo, antes mesmo deu abrir a boca me barrou com o sonoro: - Cuidado, ela é bairrista! E eu fiquei com meus pensamentos para só agora colocá-los no papel... acho que é mais ou menos assim...

Em Salvador, o verão dura o ano inteiro, portanto esse clima de praia, de corpos bronzeados, de cerveja gelada e de lascividade permanece como tatuagem. As poucas vezes que chove, entre os meses de junho a agosto, só acontece porque molhado também é uma delícia e o baiano gosta. O prazer retirado das pequenas coisas é a primeira marca do povo daqui, mas a Bahia tem outras coisas que não há em nenhum outro lugar, esse é o problema – dos outros, é claro...

Por exemplo: picolé da Capelinha. Tem de coco, de amendoim pra garantir a sustança, de morango pra chupar de pedaços, de siriguela e umbu pra refrescar quando o calor estiver intenso e outros sabores.

Tem pra todos os gostos, ô na Bahia tem. Experimente! Não vem com i-pod, mas em compensação com o picolé pode tudo, todos os palitos que estivem escrito CAPELINHA são premiados.

Se você não gostar de chupar picolé, você pode dar uma voltinha na Ribeira e experimentar os sorvetes. Ô gente, geladinho... na casquinha a gente pode passar até a língua e no copinho a gente bebe até o último caldinho. Recomendo alguns: coco verde e ameixa, mas desaconselho as experiências com os sabores exóticos como o de rambutan. Viu que nem sou tão bairrista! Minha amiga Gi inventou de fazer essa experiência e não recomenda, faço como ela, também não recomendo... Mas é claro que a gente pode usar o termo rambutan para outras coisas, use sua imaginação! O baiano é um povo extremamente criativo e eu depois de estudar terminologia estou aprendendo a usar os termos. Uso e abuso.

Na Bahia também tem pão delícia. Derrete na boca... tem recheio e já vem A-BER-TO para você preencher com o que quiser.

Viva a modernidade baiana! Nesse caso eu recomendo experimentar de tudo e se fartar. Pão delícia é uma diliça! A baiana quando é melada de pão delícia fica uma coisa de enlouquecer. [Conforme declaração do cantor do Psirico, Márcio Victor, foi após viver uma experiência dessa que a música "Toda Boa", eleita o hit do carnaval 2008, foi composta. Atualmente a melodia pode ser ouvida pelas ruas do Pelourinho e toda Cidade Baixa nas paqueras, conquistas e tentativas similares.] Mulher brasileira é gostosa, a gente sabe. Um pessoal cheio de perna, de bunda, de peito, um conjunto massa, mas mulher "toda boa" é outra história. Meninos, atenção! Ser chamada de "toda boa" é mil vezes melhor do que ser chamada de gostosa. Se fizer a entonação certa então, ai, ai...

Na categoria doces e salgados, tem também a Perini, recomendo a coxinha... coxinha com catupiry... Na verdade eu como de tudo (é da Perini, viu?) e aconselho comer muitas vezes.

Quando a comida é gostosa a gente repete o prato! E baiano quando come gostoso se lambuza. Como diria uma amiga minha: ui!

Claro que o acarajé tem que estar presente, mas nada dessa conversa de quente ou frio. Acarajé na Bahia é sempre quente e isso não quer dizer que tem pimenta, aliás isso é uma invenção de quem não tem o que fazer... Frio? Na Bahia? Ô fio, alguém te enganou... a cidade é quente, o povo é caloroso e o que segura a onda é a umidade do ar. Peça o seu pra baiana como quiser, mas coma! E lembre-se, acarajé é comida de santo. Ofereça uma a Yansã, ela vai adorar!

Mas nem só de acarajé a gente vive, mas que acarajé é hamburguer de baiano, isso é. O dendê é utilizado aqui como em nenhum outro lugar, coma moqueca, bobó de camarão ou galinha de xinxim até melar as pontas dos dedos, mas não esqueça o caranguejo e os mariscos. O corongondé me recuso apresentar, vá a Vital no Pelourinho! Mania de ter tudo na mão... tudo bem que eu acho que tudo começa pelas mãos, mas não é qualquer mão.

Hum, e as frutas? Já chupou uma manga espada até escorrer pelo braço? Chupou umbu até os dentes ficarem travados? Comeu jaca mole e dura pra depois beber água? Confundiu cajá com siriguela?

Tentou chupar cana e assobiar ao mesmo tempo... aqui o povo consegue... tem virote pra dar e vender...  E por falar em fruto, vamos aos da terra. Somente para as meninas; respondam-me, por favor: além da jabuticaba e do mané véio, já provaram um negão? Olha, uma mulher não é completa se não tiver, ao menos uma vez na vida, um negão. E os daqui são do tipo exportação... Repararam como as gringas ficam doidas? Um conselho: os que cheiram a coquinho são os melhores... atenção para os colares! Ui, e por falar em colar, ainda tem o do Ghandi. Troque, troque pelo beijo e sinta o cheiro de alfazema perfumar a sua vida. Cheiro é tudo!

Agora para os meninos: já pegaram uma piriguete? Sensacional... Piriguete verdadeira só na Bahia. Estamos reinventando a mulher!

E meu caro, se não providenciou uma, corra atrás. Vai ser no mínimo divertido. Recomendo apenas cuidado porque com piriguete as coisas funcionam da seguinte forma: quem não dá assistência, abre concorrência e, nesse caso, a fila anda e a catraca gira.

Só na Bahia a gente se prepara para o carnaval vivendo o clima delicioso dos ensaios... Cortejo afro, Negra cor, quadra do Ylê, Gerônimo e todos os outros grandes artistas que o mundo já conhece. Axé. A gente tem tudo isso durante o ano todo, mas oferecemos generosamente a todos no Festival de Verão. Venha, venha, venha, venha...

Por fim, mais uma coisinha para os amigos cariocas do meu amigo amado. Se vocês passaram pela Bahia e não conheceram esse pouquinho que eu relatei texto acima, lamento... falta muita coisa na sua vida. Se viveram tudo isso, mas só ficou em Salvador, eu lamento mais ainda.

Conhecer a Bahia significa namorar na rua, andar de mãos dadas, ver o pôr-do-sol no Humaitá e de lá ter alguém ao lado pra te conduzir pelas entranhas do Estado.

Conhecer Cachoeira e Santo Amaro, comer maniçoba, dormir na rede que deita dois e levanta três, comer sequilho das freiras do Museu do Recolhimento dos Humildes, tomar banho na Cachoeira da Vitória e do Urubu, sambar miudinho o samba de roda, passear na praça e sorrir pra vida é o mínimo que se pode fazer. Faça! [Todas as delícias do Recôncavo baiano são comprovadas pela autora. Segundo Rocha, "é justamente para ter a possibilidade de poder afirmar algo, que ela está cursando o mestrado em Ciência da Informação". Logo, asseguro a qualidade da informação disponibilizada, no entanto, ressalto que a interpretação é unívoca. E conhecer a Bahia é igual a ir à Meca: ao menos uma vez na vida... Isso porque basta uma vez pra gente ter certeza do retorno, quanto a Meca... ]

Além do recôncavo, a Bahia tem a Chapada Diamantina. Passeio na Gruta da Lapa Doce, na Pratinha, na Gruta azul, trilhas. Dormir ao relento é o básico que se pode fazer num lugar desse. Pense no clima de romance... Imagine a lua... Construa seu colar no Rio de Contas. Jogue búzio. Veja o et no Capão. Agradeça.

Olha, eu adoro Natal; amei ter conhecido Ouro Preto e ter comido pão de queijo inclusive, volto lá acompanhada; fico sempre maravilhada com a beleza natural do Rio e digo: eu mereço o Rio de Janeiro!; acho incrível a quantidade de informação que São Paulo processa num único dia e gosto do ritmo voraz da cidade; não gosto de Recife e acho que Pernambuco tem apenas três coisas incríveis: minha filha que nasceu lá, a praia mais linda que conheço (Porto de Galinhas – e de praia eu entendo!) e Fernando de Noronha; e acho que Aracaju tem o melhor caldo de camarão do nordeste.

Por tudo isso me considero uma pessoa bacana com os outros...

No entanto, fico insuportável quando falo da Bahia porque, esse mesmo amigo meu que acabou com minha reputação democrática e participativa, fez a seguinte afirmação após eu ter feito minha tatuagem – três estrelas que Yemanjá gentilmente tirou do seu vestido e permitiu que eu tatuasse há cinco anos atrás, no dia 2 de fevereiro - : - Nossa, agora ela é uma mulher cinco estrelas! E eu respondi na lata: - Isso amigo! Tenho três tatuadas atrás da orelha, uma riscada naturalmente na mão esquerda e a outra eu faço ver... Só na Bahia pode haver uma mulher cinco estrelas... tenho certeza que nos outros lugares do mundo existem coisas ímpares, mas a Bahia é plural!

Eu fiz a minha nota. Fiz o meu pequeno registro. Se você acha que tem melhor, mande. A Bahia vai sempre te receber de braços abertos. Cuidado apenas com o abraço que vira um laço... Cheiro.

Texto: Ana Karina Rocha de Oliveira
Fotos: Ana Karina Rocha de Oliveira + Thomas Milz

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