ed 01/2014 : caiman.de

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[art_3] Brasil: Agora é pra valer!
 
Chegou 2014, ano da (supostamente) maior Copa de todos os tempos. Finalmente!

Já não dá mais para aguentar tantas matérias escritas para mostrar que as obras de infraestrutura para tal evento não estão andando em ritmo previsto, não dá mais para aguentar os comentários tão óbvios sobre quem é favorito a ganhar a Copa.


Primeiro: são sempre as mesmas seleções mencionadas, e não precisa ser expert para dizer quais são: o Brasil, claro, a maior vencedora de Copas, com cinco títulos. Jogando em casa, lógico que é favorito absoluto. Depois a bicampeã Argentina, por jogar quase em casa e ter o maior astro do futebol, o pequeno gigante Messi, além de outros craques que atuam nos maiores times do mundo. E a Itália, que já venceu quatro torneios e é sempre um exemplo de superação.

Juntam se a estes a atual campeã Espanha, que ganhou os últimos três torneios que disputou, a Alemanha, que quase sempre chega às semifinais (mas não além dela) e que tem uma colheita de jovens talentos promissoros. E, claro a França, por ser ela o carrasco tradicional da seleção brasileira. Dizem que até o Uruguai e a Bélgica tenham chances, a primeira por ter superada a seleção brasileira em 1950, no mesmo Maracanã, e a segunda por ter jogadores extraordinários. Vamos ver de que estas duas seleções serão capazes de fazer.

E as obras para a Copa, o tal legado que permanecerá para o "País do Futebol"? Para começar com os estádios: são (quase) todos lindos de morrer. Com exceção do Itaquerão, em São Paulo, cuja forma quadrada não combina com a ideia de um estádio de futebol, penso. Mas a Fonte Nova, estádio espetacular com uma vista linda sobre o Dique do Tororó, o próprio Maracanã, no Rio, e os reformados Mineirão, em Belo Horizonte, e o Castelão, em Fortaleza, são belos exemplos de arenas modernas cheias de caráter próprio.


Pena que os lindos estádios de Brasília, de Natal, Manaus e Cuiabá terão um destino indefinido apos da Copa, por falta de equipes fortes com torcidas grandes naquelas cidades. O que viram depois da Copa? Ninguém sabe dizer.

E o resto, as obras de infraestrutura, de aeroportos e de hotéis? "Agora, danem-se o aeroporto, o motorista que não fala inglês, dane-se tudo. Agora, o que vai imperar é a paixão pelo futebol, e, como sabemos, o amor é cego," escreveu o publicitário Nizan Guanaes recentemente. Será? A revista Veja escreve nestes dias que o Brasil pode muito bem ganhar a Copa no campo, mas perde-la fora dos estádios. Será?

A final das coisas, o Brasil é o "País do Futebol", e não do "Planejamento e da Infraestrutura". O turista que vem para ver a Copa dará mais destaque às obras do que ao futebol? Acredito que não. De onde surgiu a ideia de que pessoas que sabem bem chutar uma bola também tem de saber transformar um país continental e com problemas sociais gritantes num exemplo de infraestrutura, comparável com a pequena Alemanha?


Talvez tal ideia tenha nascida na cabeça do então Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que queria mostrar um Brasil que (infelizmente) não existe. A final das coisas, ser sede de um evento desse é questão de orgulho nacional. Neste contexto, ter manifestações contra a gastança no padrão FIFA, como aconteceu durante a Copa das Confederações, em Junho de 2013, é visto como vergonha nacional. Não acho, pois mostra que a sociedade civil avançou, e muito, na visão sobre como um país tem que dar suas prioridades. Avançou mais que o próprio governo ufanista, alias. Questionar as gastanças durante a Copa de 2014 seria importante para o Brasil, mais importante, alias, do que ganhar no campo.

Mas isso é o ponto de vista de um alemão. E não de um brasileiro. Segundo o antropólogo brasileiro Roberto DaMatta, perder a Copa de 1950 em casa tenha sido "talvez a maior tragédia da história contemporânea do Brasil." Será? Penso nos problemas sociais, nas mortes de quase 50.000 pessoas por ano por causa da violência urbana. Isso me parece uma tragédia maior, senhor DaMatta. Como pode um antropólogo, cuja ciência abrange o ser-humano na sua totalidade, destacar uma única partida de futebol?

Perguntam aos alemães se para eles perder a Copa de 2006 em casa tem sido a maior tragédia da história contemporânea? Ou para os italianos perder a Copa de 1990? Depois de duas guerras mundiais, as prioridades mudaram. E isso certamente vale para os outros países que já sediaram a Copa.


Queremos ver jogos eletrizantes, muitos gols, jogos bonitos, queremos ver a bola rolar. E que a melhor seleção vença, por favor. Mas o futebol é apenas um jogo. Pelo menos deveria ser. Julgar um país apenas pela capacidade de chutar uma bola seria demais. Mas, a final das coisas, o Brasil se autodeclara o "País do Futebol", e aí temo pela sanidade mental dos anfitriões. Por favor, lembrem-se que futebol não é a vida real, como as telenovelas não são a vida real. Sejam menos dramáticos!

Se não, o ano de 2014 apresentará a segunda maior tragédia da história contemporânea do Brasil. Dentro ou fora do campo. Ou ambos.

Que os jogos comecem logo, por favor!

Texto + Foto: Thomas Milz

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