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[art_2] Brasil: Rapte-me camaleão! – 70 anos Caetano Veloso
Vol. 8: Final infeliz (por enquanto, pelo menos)
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Os anos 2k começam com um disco perturbante. "Noites do Norte" é um disco sobre a escravidão em pleno século 21. Na verdade, Caetano queria fazer um álbum de apenas sons e percussão. Mas depois da leitura do texto "Minha Formação ", do abolicionista Joaquim Nabuco, decidiu botar letras.


O disco mostra um compositor fora de forma, forma que ele, aliás, aparentemente perdeu para sempre. Ele mergulha nos diversos estilos musicais, canto clássico em italiano (Michelangelo Antonioni), acompanha uma percussão baiana linda (Zera a reza) com uma letra pouco inspirada, toca um Rock que não deslancha (Rock´n´Raul), cria paisagens de som que lembram "Araça Azul", disco experimental de 1972.

Destaques? Para mim, não tem. Infelizmente, Caetano deixou de ser um compositor de peso, e foca nas interpretações ao vivo.


O ano 2001 traz tal disco, "Noites do Norte ao vivo". É o primeiro disco ao vivo de Caetano que não traz cortes ou uma seleção de repertório. É o show inteiro e na sequência certa pois apresentada nos palcos. Quase todo o disco de estúdio entra no show, infelizmente. Mas o disco vale, e muito, pelas apresentações fantásticas de músicas antigas: "Dom de iludir", "Tigresa", "Língua", "Nosso estranho amor" e "Tropicália". Como ele era bom!!! Antigamente! Mas, pelo menos, ainda se lembra das suas músicas boas.

No ano seguinte, Caetano deixa seus seguidores, com o próximo disco, ainda mais de boca aberta. E parece que ele sabia disso já antes de lança-lo. Pois o álbum se chama "Eu não peço desculpas" - mas deveria pedir! Junto com o amigo Jorge Mautner, ele aparentemente quer testar os limites dos ouvintes.


Já que está tudo errado neste disco, pelo menos anuncia isso logo no começo: "Todo errado" - assim começa o disco. "Eu não peço desculpas, e nem peço perdão", eis a letra de Jorge Mautner. "Manjar de reis" pelo menos é divertido, uma música de Mautner e Nelson Jacobina. Ainda tem "Maracatu atômico", que já se ouviu em versões melhores (Chico Science, Gilberto Gil), "O Namorado" brinca com "A namorada" de Carlinhos Brown sem fazer rir. E assim vai até o fim. Meu Deus!

Em 2004, Caetano se aventura, mais uma vez, naquele língua que ele sempre disse não gostar muito: o inglês. De Nirvana ("Come as you are") até Cole Porter ("So in love") e Bob Dylan ("It`s alright, Ma"), ele une famosas melodias anglo-americanas. É uma versão de "Fina Estampa" em inglês, com, as vezes, até percussão brasileira no meio. Quando o disco termina com "Love me tender" numa versão tipo canção de ninar, me pergunto o que fazer disso tudo. Tiro o disco do tocador, para nunca mais ouví-lo novamente, juro para mim.


As únicas músicas novas daquele época que agradam não são compostas pelo próprio Caetano: "Você não me ensinou a te esquecer", do filme "Lisbela e o prisioneiro", e "Burn it blue", da trilha do filme "Frida". Ambas muito boas!

Em 2006, segue o próximo disco solo, "Cê", gravado com sua nova banda que o acompanha até hoje. Um disco mais rock, cheio de raiva, com som de "garagem". O casamento com sua segunda mulher tinha acabado pouco antes, e Caetano transpira sexo e decepção, bota a raiva para fora: "Você não vai me reconhecer quando eu passar por você, de cara alegre e cruel, feliz e mau como um pau duro…" Depois chora em "Minhas lágrimas", só para depois assegurar que "Não me arrependo".


Em "Rocks" acusa "você foi mor rata comigo" e em "Odeio" consta que "odeio você, odeio você, odeio você, odeio". De tanta raiva mal resolvida, o disco cansa logo e vira coisa de homem velho e chato. Até hoje, aliás, parece que Caetano não se recuperou daquele soco fatal.

O disco "Multishow Cê ao vivo" repete as músicas chatas de "Cê". Mas, felizmente, traz regravações interessantes da fase londrina: "London London" (essa numa versão magnífica), "You don`t know me" e "Nine out of ten".


Em 2009, Caetano lança "Zii e Zie", um disco com o mesmo naipe de "Cê", e com a mesma banda. Novamente, um som rock de "garagem", letras que falam de sexo (ele estava com 66 na época!) - só que a raiva de "Cê" foi embora e deixou apenas tristeza e depressão no lugar dela. Até a capa é deprimente, um Rio de Janeiro com chuvas e sem luz. Caetano aparentemente andava tão sem inspiração que tentou criar algo em sessões abertas, disfarçadas de shows com o título "Obra em progresso". A música "Perdeu", que abre o disco, ainda tem alguns momentos bonitos. Depois vai de chato ("Lobão tem razão") e irritante ("Base de Guantanamo") até o ridículo ("Tarado ni você").


Ele depois repete a mesma receita de "Cê" e lança logo um disco ao vivo com o repertório (!) de "Zii e Zie". Felizmente, Caetano escolha outras músicas antigas que ganham muito peso com o som tipo "garagem": "A voz do morto", de 1968, "Maria Bethânia", "Irene" e "Não identificado", todas final de 60, começo 70. Além disso, "Volver", de Carlos Gardel e Alfredo Le Pera.

Um ano depois, sai mais um disco ao vivo: "Multishow ao vivo Caetano e Maria Gadú". Os dois cantam os grandes hits de Caetano plus umas músicas de Gadú, tudo em formato "acústico". Destaques são "Beleza pura", "O quereres", "Vaca profana" e "Rapte-me, camaleoa". Maria Gadú mostra todo seu potencial com uma versão fantástica de "Podres poderes", uma das músicas mais fantásticas de Caetano, e com uma letra longa e complicada. Mas a Gadú consegue, e como!


Poucos meses depois, no começo de 2012, mais um disco ao vivo, "Caetano Veloso e David Byrne Live at Carnegie Hall", um show acústico dos dois de 2004. O disco não é lançado no Brasil, mas aparece nas lojas como importado. 2012 também vê o lançamento do disco "Recanto Gal", de Gal Costa, com todas as músicas compostas por Caetano. Não há cabimento de comentar esse disco aqui, na verdade nem dá para ouví-lo por inteiro….. Pelo menos eu não consegui. Tampouco queremos comentar o disco ao vivo "Roberto Carlos e Caetano Veloso e a música de Tom Jobim" (2008), pois ambos não fazem parte da discografia oficial de Caetano.

Estamos chegando no "agora", o final do ano 2012. Caetano já anunciou que está trabalhando num disco novo, de composições novas. Já ouvimos "Império da lei", música inédita que deve estar no novo disco, num show no Rio de Janeiro uns meses atrás. Mas ainda não dá para julgar o que vai acontecer no futuro.

Mas estamos preocupados - a carreira de Caetano chegou num triste fim? Ele ainda será capaz de surpreender? Dá para ter esperança? Só Caetano para dar a resposta.

Texto + Fotos: Thomas Milz

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